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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Peituga no forno


A uns dias atrás comprei uma peituga de porco no talho local ( tive que a encomendar). Já la vai o tempo que se criavam porcos em casa, um feito muito comum pelos agricultores em muitas terras e lugares, que hoje cada vez mais esta desaparecendo devido as políticas das leis. Nasci no Brasil filho de pais portugueses e  muito novo fui para Portugal, (atualmente vivo em Principat de Andorra) nomeadamente para freguesia da Gafanha do Carmo, pertencente ao município de Ílhavo e distrito de Aveiro. Quando ai cheguei em 1975 era muito comum qualquer família de habitantes desta pequena aldeia criar porcos. Normalmente um porco matava-se ao fim de um ano, mas havia quem cria-se porcas (fêmea do porco) durante 2 ou 3 anos. Essas porcas conhecidas como criadeiras (porcas que já havia parido leitãozinhos um par de vezes) na qual sua carne era muito apreciada justamente por ter dado a cria varias vezes o toucinho ficava com camadas de febras cada vez que paria os leitões. Dessas porcas tirava-se as peitugas, um naco de carne muito apreciada, pois davam uns bons Rojões.
Minha mãe costumava assar a peituga no forno e ao prepará-la, veio-me a cabeça recordações do passado, nomeadamente a “Matança do porco”
Com a chegada do inverno, chegava também a época da matança do porco por quase toda freguesia, pois com a chegada do frio era mais fácil conservar a carne (pouca gente tinha arcas congeladoras) nas típicas salgadeiras. Logo de manha juntavam-se 3 ou 4 homens (normalmente familiares ou amigos), entre os convivas escolhia-se aqueles que irão apanhar o bicho que de véspera tendo este jejuado até à manhã. Trazia-se o animal para fora do curral para cima de uma carroça de bois. Amarrava-se uma das patas de trás e um outro agarrava as orelhas, comandados pelo matador que entretanto afasta quem tenha pena do suíno, não vá o sangue coalhar!
Dava-se um golpe rápido e certeiro, enquanto o sangue jorrava para um alguidar com sal e vinagre, o animal oscila em espasmos violentos na sua luta derradeira. Baixava-se o animal já morto para a eira onde já havia um monte de bicas para a queima, limpeza e raspagem, uns tentavam adivinhar o peso do animal, cujo quem acertava orgulhava-se do olho que tinha para estas coisas. Entretanto era hora de matar o outro bicho, que se afoga com copinhos de vinho ou vinho do porto. Depois do porco pendurado de cabeça para baixo seguia-se a abertura do porco, um momento de alguma precisão, não vá a faca perfurar alguma tripa e deitar muito do trabalho a perder. Abria-se com dois cortes na barriga, deixando a parte central onde está os tetos, na qual atirava-se para traz entre as pernas ( a Peituga), Via-se então se a porca era boa, se tinha muita banha ou se era bem entremada.  Soltavam-se alguns provérbios; “ Se queres ver o teu corpo, abre um porco” , “No porco tudo se aproveita”, etc. . Retiravam-se as tripas para um alguidar, operação esta, que requeria alguma pericia para que nenhuma tripa se rebente. Eram levadas para a ria onde eram lavadas pelas mulheres da casa, para que depois sejam cheias com a carne na qual resultavam nos diversos tipos de enchidos (morcelas ou chouriças) que curavam-se suspensos em varapaus no fumeiro dos  borralhos das cozinhas de lume.
Aproximava-se a hora do almoço. Com ela também a confraternização,  Era assim a matança do porco  nas Gafanhas, este era um ritual que se repetia ano após ano que apesar das ligeiras alterações técnicas (passou-se a usar maçarico a gás em vês de bicas), se tem mantido no relógio do tempo. Por tudo isso sinto um orgulho em ser filho de portuguese, de ter vivido nas gafanhas. De ser da Gafanha do Carmo.

Ingredientes
Uma boa peituga de porco
3 dentes de alhos
3 colheres (de sopa) de azeite
2 colheres (de sopa) rasas de sal grosso
1 colher (de sopa) de pimenta branca
½ colher (de sopa) de colorau
1 copo de vinho branco
Batatas que baste

Preparação
Num almofariz esmagar os dentes de alho com o sal, passe para um recipiente que leve tudo e misture o azeite, o colorau, a pimenta e o vinho branco. Numa assadeira ponha a peituga (faça uns cortes para entranhar bem os temperos) com o coirato para baixo e verta por cima o preparado de temperos leve ao forno a 180º durante 30 minutos. Entretanto tire as peles das batatas descascadas e corte em gomos retire o tabuleiro e espalhe as batatas a volta da carne, vai ao forno mais 15 minutos, retire e vire o coirato para cima, (se necessário acrescente um pouco água) vai novamente ao forno mais 15 minutos até o coirato ficar bem tostado. Sirva com arroz e uma boa salada verde.

Bom Apetite

2 comentários:

  1. ola zezao, fazes uma discricao, espectacular da matanca do porco na nossa terra. eu so acrescentaria o acto de distribuir uns rozoes quentinhos assim como um pedaco de serrabulho,ou um pedaco de carne acabado de cortar,aos vizinhos.era muito comum.parabens pelo site, um abraco

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  2. Sim tinha isso em mente pois normalmente o almoço era sarrabulhdo e batatas cozidas com a pele. obrigado pelo teu comentario, pois assim torna a minha narração mais completa
    Um abraço..........BY ZEZÃO

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